
Liturgia
Quinta-feira Santa e o Mistério da Eucaristia na Igreja Primitiva
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Quer se sustente, com alguns Padres siríacos, que Cristo instituiu a Eucaristia na terça-feira — quer, com a tradição ocidental, que a instituiu na quinta-feira — hoje, Quinta-feira Santa, é o dia em que a Igreja Católica recorda liturgicamente esse acontecimento. Estou prestes a sair com meus filhos para a Missa do Crisma em minha diocese. É um grande espetáculo para as crianças verem todos os anos: todos os sacerdotes da Igreja local reunidos em torno de seu bispo, à mesa do Senhor — exatamente como Inácio descreveu a Eucaristia em Antioquia por volta do ano 105.
Para marcar este dia, ofereço-vos o texto a seguir, adaptado do meu livro A Missa dos Primeiros Cristãos..
A Missa dos primeiros cristãos era algo ao mesmo tempo familiar e íntimo. Para os Padres, assim como para os Apóstolos, ela constituía o ato definidor da vida cristã. Mesmo nos tempos de perseguição, a comunhão diária era bastante comum.
Os cristãos sentiam-se “em casa” na Missa. E, no entanto, sua reverência era profunda. No século III, Orígenes observava que, quando seus ouvintes “recebem o Corpo do Senhor, vós o guardais com todo cuidado e reverência, para que nenhuma pequena partícula se perca, para que nada do dom consagrado venha a ser extraviado”. No século IV, Cirilo de Jerusalém exortava o povo: “Dizei-me: se alguém vos desse grãos de ouro, não os guardaríeis com o maior cuidado, vigilantes para não perder nada? Não tereis ainda maior cuidado para não perder uma migalha daquilo que é mais precioso do que o ouro ou as pedras preciosas?”
Essa reverência estendia-se também aos vasos litúrgicos, que eram sempre confeccionados com os melhores materiais que a Igreja local podia oferecer. O contemporâneo africano de Orígenes, Tertuliano, descrevia cálices ricamente ornamentados com imagens de Cristo. E, no auge da última perseguição, no ano 303, um tribunal romano no norte da África registrou que os seguintes objetos haviam sido confiscados de uma igreja: dois cálices de ouro, seis cálices de prata, seis patenas de prata, uma tigela de prata, sete lâmpadas de prata, duas tochas, sete candelabros curtos de bronze com suas lâmpadas e onze lâmpadas de bronze suspensas por correntes.
No século seguinte, São Jerônimo escreveria sobre a necessidade de “instruir, com a autoridade das Escrituras, os ignorantes em todas as igrejas acerca da reverência com que devem tratar as coisas santas e servir ao altar de Cristo; e de incutir neles que os cálices sagrados, os véus e os demais objetos usados na celebração da Paixão do Senhor não são meros utensílios inertes e destituídos de santidade, mas que, ao contrário, por sua associação com o Corpo e o Sangue do Senhor, devem ser venerados com o mesmo temor reverencial que o próprio Corpo e Sangue”.
Tal cuidado com os detalhes litúrgicos decorria da fé da Igreja na Presença Real. “Pois quem come e bebe sem discernir o Corpo, come e bebe a própria condenação” — escreveu São Paulo (1Cor 11,29). De fato, Santo Inácio de Antioquia (escrevendo por volta do ano 107) afirmava que o sinal distintivo dos hereges era a negação da Presença Real: “Eles se abstêm da Eucaristia e da oração, porque não confessam que a Eucaristia é a carne de nosso Salvador Jesus Cristo”. Quatro décadas depois, São Justino Mártir escrevia que “o alimento consagrado pela oração de sua palavra […] é a carne e o sangue de Jesus que se fez carne”. Quod erat demonstrandum.
Essa presença era permanente, não algo que desaparecia ao término da Missa. São Justino descreve diáconos levando a Comunhão aos doentes e aos que permaneciam em casa. Tertuliano relata que os cristãos, em tempos de perseguição, conservavam o Sacramento em suas casas para a comunhão diária. E Hipólito, na Roma do século III, exortava os cristãos a guardarem o Sacramento em lugar seguro, onde nenhum rato pudesse roê-lo: “Pois é o Corpo de Cristo […] e não deve ser tratado com leviandade”.
A Igreja manteve essa compreensão desde o princípio, e ela se manifesta de modo particularmente evidente em sua linguagem de oração. O vocabulário teológico desenvolveu-se mais gradualmente, muitas vezes em resposta a abusos e heresias. Quando alguns clérigos africanos abstêmios começaram a celebrar a Missa sem vinho, São Cipriano exortou-os a retornar à prática tradicional. Pois, dizia ele, os hereges estavam suprimindo muitas coisas: uma imagem divinamente instituída do Sangue de Cristo e um belo símbolo (no cálice misto de vinho e água) da união do povo com Cristo. Uma geração antes, Irineu (escrevendo por volta de 180) já havia assinalado que o cálice misto era também símbolo da união das naturezas divina e humana de Cristo. Assim, abusos litúrgicos, ainda que nascidos de boas intenções, podiam acarretar graves consequências doutrinais.
Pois a Eucaristia é critério e medida da fé cristã. As palavras de Irineu permanecem atuais: “O nosso modo de pensar está em conformidade com a Eucaristia, e a Eucaristia, por sua vez, confirma o nosso modo de pensar”.
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