
Liturgia
Cardeal Sarah: A liturgia não é o lugar de promover minha cultura
Cardeal Robert Sarah
06 abr. 2026
Tempo de leitura: 7 minutos
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Em primeiro lugar quero expressar minha gratidão à Sua Eminência, o Cardeal Vincent Nichols, por suas boas vindas à Arquidiocese de Westminster e por suas gentis palavras de saudação. Assim também quero agradecer à Sua Excelência, o Bispo Dominique Rey, Bispo de Fréjus-Toulon, pelo seu convite para estar presente com vocês nesta terceira conferência internacional "Sacra Liturgia", e para apresentar a vocês o discurso de abertura nesta tarde. Parabenizo Vossa Excelência nesta iniciativa internacional de promover o estudo da importância da formação e da celebração litúrgicas na vida e na missão da Igreja.
Neste discurso quero colocar diante de vocês algumas considerações sobre como a Igreja Ocidental pode caminhar rumo a uma implementação mais fiel da Sacrosanctum Concilium. Fazendo isto, proponho a seguinte pergunta: "O que os Padres do Concílio Vaticano Segundo tinham em mente com a reforma litúrgica?" Assim, gostaria de considerar como suas intenções foram implementadas seguindo o Concílio. Enfim, gostaria de colocar algumas sugestões para a vida litúrgica da Igreja hoje, de modo que nossa prática litúrgica possa mais fielmente refletir as intenções dos Padres Conciliares.
É muito claro, penso, que a Igreja ensina que a liturgia católica é o lugar singularmente privilegiado da ação salvadora de Cristo em nosso mundo hoje, por meio da real participação em que recebemos sua graça e sua força que são tão necessárias para nossa perseverança e crescimento na vida cristã. É o lugar divinamente instituído onde vamos cumprir nosso dever de oferecer sacrifício a Deus, de oferecer o Único Verdadeiro Sacrifício. É onde percebemos nossa profunda necessidade de adorar o Deus todo-poderoso. A liturgia católica não é uma reunião humana ordinária.
Quero sublinhar um fato muito importante aqui: Deus, não o homem, está no centro da liturgia católica. Viemos adorá-lo. A liturgia não é sobre você e eu; não é onde celebramos nossa própria identidade ou conquistas ou onde exaltamos ou promovemos nossa própria cultura e costumes religiosos locais. A liturgia é primeiro e acima de tudo sobre Deus e o que ele fez por nós. Em sua Divina Providência, o Deus todo-poderoso fundou a Igreja e instituiu a Sagrada Liturgia por meio da qual somos capazes de oferecer-lhe um culto verdadeiro de acordo com a Nova Aliança estabelecida por Cristo. Fazendo isto, ao adentrar as exigências dos ritos sagrados desenvolvidos na tradição da Igreja, recebemos nossa verdadeira identidade e significado como filhos e filhas do Pai.
É essencial que compreendamos esta especificidade do culto católico, pois em décadas recentes temos visto muitas celebrações litúrgicas onde o povo, personalidades e conquistas humanas têm sido proeminentes demais, quase ao ponto da exclusão de Deus. Como o Cardeal Ratzinger escreveu uma vez:
"Se a liturgia aparece antes de tudo como uma oficina (um workshop) para nossa atividade, então aquilo que é enssencial foi esquecido: Deus. Pois a liturgia não é sobre nós, mas sobre Deus. Esquecer Deus é o perigo mais iminentes de nossa era"
(Joseph Ratzinger, Theology of the Liturgy, Collected Works vol. 11, Ignatius Press, San Francisco 2014, p. 593).
Precisamos ser completamente claros sobre a natureza do culto católico se pretendemos ler corretamente e implementar fielmente a Constituição do Concílio Vaticano II sobre a Sagrada Liturgia.
Por vários anos antes do Concílio, em países de missão e também nos mais desenvolvidos, houve muita discussão sobre a possibilidade de aumentar o uso das línguas vernáculas na liturgia, principalmente para as leituras da Sagrada Escritura, também para algumas das outras partes da primeira parte da Missa (que agora chamamos de "Liturgia da Palavra") e para o canto litúrgico. A Santa Sé já tinha dado várias permissões para o uso do vernáculo na administração dos sacramentos. Este é o contexto em que os Padres do Concílio falaram dos possíveis efeitos positivos em âmbito ecumênico ou missionário da reforma litúrgica. É verdade que o vernáculo tem um lugar positivo na liturgia. Os Padres estavam procurando isto, não autorizando a protestantização da Sagrada Liturgia ou aceitando que ela fosse submetida a uma falsa inculturação.
Eu sou africano. Deixem-me dizê-lo claramente: a liturgia não é o lugar de promover minha cultura. Melhor, é o lugar onde minha cultura é batizada, onde minha cultura é levada para o divino. Através da liturgia da Igreja (que os missionários levaram por todo o mundo) Deus fala a nós, muda-nos e torna-nos capazes de participar de sua vida divina. Quando alguém torna-se um cristão, quando alguém entra em plena comunhão com a Igreja Católica, recebe algo mais, algo que o transforma. Certamente, as culturas e outros cristãos trazem dons consigo para a Igreja - a liturgia dos Ordinariatos dos Anglicanos agora em plena comunhão com a Igreja é um belo exemplo disso. Mas eles trazem esses dons com humildade, e a Igreja, em sua materna sabedoria, faz uso deles como ela julgar apropriado.
Uma das mais claras e belas expressões das intenções dos Padres do Concílio encontra-se no início do segundo capítulo da Constituição, que considera o mistério da Santíssima Eucaristia. No artigo 48 lemos:
"É por isso que a Igreja procura, solícita e cuidadosa, que os cristãos não entrem neste mistério de fé como estranhos ou espectadores mudos, mas participem na ação sagrada, consciente, ativa e piedosamente, por meio duma boa compreensão dos ritos e orações; sejam instruídos pela palavra de Deus; alimentem-se à mesa do Corpo do Senhor; dêem graças a Deus; aprendam a oferecer-se a si mesmos, ao oferecer juntamente com o sacerdote, que não só pelas mãos dele, a hóstia imaculada; que, dia após dia, por Cristo mediador, progridam na unidade com Deus e entre si, para que finalmente Deus seja tudo em todos".
Meus irmãos e irmãs, é isto que os Padres Conciliares queriam. Sim, certamente, eles discutiram e votaram formas específicas de alcançar suas intenções. Mas sejamos bem claros: as reformas rituais propostas na Constituição, tais como a restauração da oração dos fiéis na Missa (n. 53), a extensão da concelebração (n. 57) ou algumas de suas regras tais como a simplificação desejada pelos artigos 34 e 50, estão todas subordinadas às intenções fundamentais dos Padres Conciliares que acabei de traçar. Elas são meios para um fim, e é o fim que devemos alcançar.
Se pretendemos caminhar rumo a uma implementação mais autêntica da Sacrosanctum Concilium, são estas metas, estes fins que devemos manter diante de nós em primeiro lugar e acima de tudo. Pode ser que, se os estudarmos com olhos limpos e com o benefício da experiências das últimas cinco décadas, vejamos algumas reformas rituais específicas e certas regras litúrgicas numa luz diferente. Se, hoje, a fim de "comunicar um vigor sempre crescente à vida cristã entre os fiéis" e "ajudar a chamar a humanidade inteira para o seio da Igreja" algumas dessas precisarem ser reconsideradas, peçamos ao Senhor que nos dê o amor, a humildade e a sabedoria para assim o fazer.
Eu levanto esta possibilidade de olhar novamente para a Constituição e para a reforma que seguiu sua promulgação porque não acho que podemos honestamente ler nem mesmo o primeiro artigo da Sacrosanctum Concilium hoje e nos contentarmos por termos alcançado suas metas.
Meus irmãos e irmãs, onde estão os fiéis de que falaram os Padres Conciliares? Muitos dos fiéis hoje são infiéis: eles não vêm mais para a liturgia. Para usar as palavras de São João Paulo II: muitos cristãos estão vivendo num estado de "apostasia silenciosa"; eles "vivem como se Deus não existisse" (Exortação Apostólica Ecclesia in Europa, 28/06/2003, 9).
Onde está a unidade que o Concílio esperou alcançar? Nós ainda não chegamos lá. Temos feito real progresso em chamar a humanidade inteira para o seio da Igreja? Eu acho que não. E já temos feito muita coisa para a liturgia!
Em meus 47 anos de vida como sacerdote e depois de mais de 36 anos de ministério episcopal, posso atestar que muitas comunidades e indivíduos católicos vivem e rezam a liturgia reformada seguindo o Concílio com fervor e alegria, derivando dela vários, se não todos, dos bens que os Padres Conciliares desejaram. Isto é um ótimo fruto do Concílio. Mas da minha experiência eu também sei - agora também através do meu serviço como Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos - que há muitas distorções da liturgia em toda a Igreja hoje, e que há muitas situações que poderiam ser melhoradas para se alcançar as metas do Concílio. Antes de eu refletir sobre possíveis melhoras, consideremos o que aconteceu em seguida à promulgação da Constituição sobre a Sagrada Liturgia.
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