
Meditação
A Anunciação e a Maternidade Divina de Maria
Padre Jean Croiset
25 mar. 2026
Tempo de leitura: 19 minutos
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O mistério da Encarnação, que se cumpriu no mesmo instante em que o anjo o anunciou à Santíssima Virgem, e ela deu o seu consentimento, deve considerar-se como o princípio de todos os nossos mistérios, como o fundamento da nossa religião, como a obra-prima do Onipotente, como a origem da nossa ventura, e como o mistério por excelência, da bondade e amor de Deus para com os homens, justificado pelo Espírito Santo, admirado dos anjos, pregado às nações, crido no mundo, recebido na glória: Magnum pietatis sacramentum, quod manifestatum est in carne ... creditum est in mundo, assumpto est in gloria (1)
E porque a felicíssima nova, que o arcanjo S. Gabriel trouxe à Santíssima Virgem, do mistério da Encarnação é em todo o rigor o sinal mais sensível e a primeira época da nossa religião, a Igreja exprime todos os mistérios que ela encerra sob o título de Anunciação da Santíssima Virgem.
Tendo chegado enfim o ditoso momento destinado desde toda a eternidade para a reconciliação dos homens com Deus, aquele mesmo arcanjo Gabriel que quatrocentos anos antes havia predito ao profeta Daniel o advento e a morte do Messias, e aquele mesmo também que seis meses antes havia anunciado o nascimento do que devia ser o seu Precursor, foi enviado por Deus a uma virgem chamada Maria, da tribo de Judá e de sangue real, porque era descendente da casa de Davi.
Aquele Senhor que a escolhera para ser a Mãe do Messias, havia-a prevenido, desde o primeiro instante da sua concepção, com todos os dons celestes e com uma plenitude de graça tão assombrosa, que era o pasmo dos céus; e como dizem os Santos Padres, excedia em méritos e santidade as mais perfeitas criaturas.
Posto que por uma virtude até então sem exemplo havia consagrado a Deus com voto a sua virgindade, quis a divina sabedoria que ela esposasse um varão justo chamado José, da mesma casa de Davi, para ser guarda da honra, testemunha e protetor da sua pureza, tutor e pai putativo do Filho que havia de nascer só dela.
Vivia esta virgem em Nazaré, pequena cidade da Galileia. Foi ali onde lhe apareceu o arcanjo S. Gabriel, ao tempo — diz S. Bernardo — em que retirada da vista e comércio das criaturas, se imolava ao seu Deus no fervor da mais sublime contemplação. Esse enviado celeste, cheio de respeito e veneração à vista daquela que já considerava como sua Rainha e Soberana, saúda-a por estas palavras: Deus te salve cheia de graça, o Senhor é contigo, bendita és tu entre as mulheres: — saudação que compreendia o mais pomposo e magnífico elogio que podia dar-se a uma criatura; porque era assegurar-lhe que ela estava cheia dos dons do Espírito Santo; que possuía todas as virtudes em supremo grau; e que não havia nem nunca haverá criatura mais excelente aos olhos de Deus.
A repentina vista d'um anjo em figura de homem causou a princípio alguma turbação à mais pura das virgens. Encheu-se de rubor o seu virginal semblante, e o seu coração de sobressalto.
Mas o anjo, que notou aquela turbação, a tranquilizava, dizendo: Não temas, Maria; porque achaste graça diante de Deus. Este Senhor quer que sejas mãe d'um filho, mas sem detrimento da tua virginal pureza. Conceberás no teu ventre e darás à luz esse filho, e o chamarás pelo seu nome Jesus. Ele será grande, e será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi seu pai. Mas não ascenderá ao trono por direito de sucessão; porque a sua soberania lhe é devida por título bem diferente. Como filho de Davi dominará sobre os povos de todo o universo; e a sua coroa não será da mesma natureza da coroa dos reis da terra. Fundará uma monarquia. Na Igreja do Deus vivo, na misteriosa casa de Jacó reinará sem sucessor, pois que o império deste grande Monarca não reconhecerá outros limites em sua extensão que os de todo o universo, nem outro termo na sua duração que o da eternidade.

É fácil de conceber quais foram então os sentimentos da mais humilde de todas as criaturas. Não podia compreender que Deus estivesse posto os olhos nela para o cumprimento de tão alto e assombroso mistério. Além disso, a qualidade dele a assustava; — tanto era a aprovação em que tinha o puro estado de virgem. Foi o que a absorvia e perguntava ao anjo: Como se fará isto (2) Pergunta, diz Santo Agostinho, que a puríssima Virgem não formularia, se não tivesse feito voto de perpétua castidade: Quod profecto non diceret, nisi virginem se ante vovisset (3).
Então o anjo para a sossegar lhe declarou que só Deus seria Pai do Filho de que ela havia de ser Mãe; que conceberia do Espírito Santo, o qual, sendo a virtude do Altíssimo, formaria miraculosamente o fruto que havia de nascer das suas entranhas, tornando mais pura ainda a sua virgindade; e finalmente que o Filho que nasceria dela havia de chamar-se e seria verdadeiramente o Filho de Deus, em quem residiria corporalmente toda a plenitude da Divindade, todos os tesouros da santidade e da sabedoria divina. — E em testemunho desta verdade, acrescentou o anjo, levo ao teu conhecimento a maravilha que Deus acaba de fazer em favor de tua prima Isabel; a qual na sua avançada idade não podia já esperar ter filhos naturalmente, e contudo está grávida de seis meses, porque nada é impossível ao Onipotente; e aquele que pode dar um filho a uma anciã e estéril, também pode fazer mãe uma virgem, sem que esta deixe de ser virgem.
Enquanto o anjo falava, Maria sentiu-se interiormente iluminada por uma luz sobrenatural, que lhe fez compreender toda a economia e todas as maravilhas deste inefável mistério; e aniquilando-se diante de Deus, exclamou: Eis aqui a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra.
Logo desapareceu o anjo: e naquele lize momento o Espírito Santo formou do sangue puríssimo da Santíssima Virgem, um corpo soberanamente belo; e criando ao mesmo tempo a mais perfeita das almas, uniu o corpo e a alma substancialmente à pessoa do Verbo: Et Verbum caro factum est (4). O Verbo por meio desta substancial união se fez carne.
Neste momento todos os anjos adoraram o Homem-Deus; neste momento converteu-se em templo o Verbo Encarnado o ventre da mais pura de todas as virgens; neste feliz momento foram cumpridas todas as profecias que anunciavam a vinda do Messias. Hodie Davidicum est impletum oraculum (5), diz S. Gregório de Neocesareia: Então se verificou o oráculo de David. — Gaudeunt campi, et omnia ligna silvarum a conspectu Domini, quoniam venit: Toda a natureza saltou de alegria, no momento em que o Homem-Deus apareceu sobre a terra. — Hodie, qui est, gignitur (6) diz S. João Crisóstomo: Neste dia foi concebido no tempo o que é antes de todos os séculos; e ainda que essencialmente imutável, começou a ser o que não era, fazendo-se homem, sem nada perder do que era na qualidade de Deus: Qui est, fit et quod non erat. Nec cum Deitatis jactura factus est homo. — Neste dia, escreve o sábio Gerson, foram ouvidos os ardentes desejos dos santos patriarcas, que suspiravam pela vinda do Messias: Hodie completa sunt omnia desideria. É esta a principal festa da Santíssima Trindade, pois não houve outro dia em que ela operasse tão grandes maravilhas: Hodie primum est et principale totius Trinitatis festum.
Quantos mistérios num só e quantas maravilhas neste mistério! Em Jesus Cristo, um Homem-Deus; em Maria uma Virgem Mãe de Deus; e em nós, em favor de quem se fizeram todas estas maravilhas, legítimos filhos de Deus.
Sim, caríssimos irmãos, diz Santo Agostinho: Talís fuit ista susceptio, quae Deum hominem faceret, et hominem Deum (7). O efeito da Encarnação foi tal, que em virtude dela, e na pessoa de Cristo, o homem se elevou a ser Deus, e Deus se abateu à forma de homem. Um Deus verdadeiro homem, e um homem verdadeiro Deus. As duas naturezas, divina e humana, unidas em uma mesma pessoa; porém fazendo-se esta união de pessoas sem confusão de naturezas. O Verbo se fez carne; e por esta união real e substancial do Verbo com a humanidade, o Verbo Encarnado fez próprias suas todas as misérias naturais do homem, e o homem entrou na participação de todas as grandezas de Deus.
Mistério inefável, a cuja execução se deve render todo entendimento criado; porque, como diz S. João Crisóstomo, não perguntemos por que virtude e de que modo o Verbo Eterno sublimou a natureza humana a uma tão nobre aliança: Neque hic quaeritur quomodo hoc factum sit, aut fieri potuerit (8). A ordem da natureza cede sempre a tudo o que Deus quis. Ubi enim Deus vult, ibi natura ordo cedit. Deus quis fazer-se homem, ele o pôde fazer, ele o fez, e salvou os homens. Voluit, potuit, descendit, salvavit. Oh que este inesgotável manancial de piedosas reflexões e de sentimentos de admiração, amor e reconhecimento neste inefável mistério!

Mas se o assombroso abatimento do Verbo, dizem os Santos Padres, é tão grande motivo de admiração; a sublime elevação de Maria à augusta qualidade de Mãe de Deus, não nos patenteia menores maravilhas. Uma virgem que concebe no tempo o mesmo Filho que Deus gerou antes de todos os séculos na eternidade. Maria tornada no sentido próprio e natural Mãe de Deus, e por esta divina maternidade, Maria, diz S. Bernardo, com autoridade sobre Deus, e Deus com subordinação a Maria. Utríque miraculum: Dois grandes prodígios: um Deus com todos os deveres de um filho para com sua mãe; e Maria em posse, respeito de Deus, de todos os direitos que uma mãe tem sobre o seu filho, e de todos os bens, por assim dizer, deste filho. Em face disto não nos espante ouvir dizer a Santo Agostinho que entre todas as puras criaturas ninguém é igual a Maria. Taceat et contremiscat omnis creatura — exclama o célebre S. Pedro Damião — et vix audeat aspicere ad tantae dignitatis immensitatem (9): Emudeça, possuída de um respeitoso temor toda a criatura, à vista desta imensa dignidade que não pode compreender. Não se receie dizer demais — acrescenta o sábio Chanceler de Paris — quando se exaltam as grandezas de Maria; porque, enlevada com os bens de seu Filho, e só inferior a Deus, está superior aos elogios dos homens: Quidquid humanis dicitur verbis, minus est a laude Virginis (10)
Não nos deve surpreender este concurso Unânime dos Padres da Igreja para publicar as grandezas inefáveis da Mãe de Deus no dia da sua Anunciação; porque esta maternidade divina encerra de per si só todos os seus dons. Hoc solum de beata Virgine praedicare, diz Santo Anselmo, quod Dei Mater est, excedit omnem altitudinem, quae post Deum dici et cogitari potest: Só com dizer que Maria é Mãe de Deus, é elevá-la acima de todas as grandezas que depois de Deus se podem dizer ou imaginar.
É esta qualidade a origem e como que o título primordial de todos os seus privilégios.
Daqui dimanou aquela conceição imaculada; aquela virgindade sem exemplo; aquela universalidade de virtudes sem limitação; daqui os magníficos, os doces títulos de Rainha do céu e da terra, de Mãe de misericórdia, de Refúgio dos pecadores.
Tributai a Maria — escreve S. Bernardo aos cônegos de Lião — tributai a Maria os justos louvores que lhe pertencem; dizei que ela achou para si a fonte das graças; publicai que ela é a medianeira da salvação e a restauradora dos séculos; porque é isto que a Igreja canta: Magnifica gratiæ inventricem, mediatrixem salutis, restauratricem sæculorum, hæc mihi de illa cantat Ecclesia (11).
Logo que Maria se tornou Mãe de Deus — diz S. Lourenço Justiniano — começou a ser escada do paraíso, porta do céu, advogada do homem, e a verdadeira mediadora entre Deus e os homens: Paradisi scala, cœli janua, interventrix mundi. Dei atque hominum verissima mediatrix (12).
Há apóstolos — exclama Santo Anselmo, — há patriarcas, profetas, mártires, confessores, virgens: todos estes são poderosos intercessores perante Deus, e eu conto muito com a sua poderosa intercessão; mas, Virgem Santa, o que todos estes podem juntos convosco, vós só podeis sem eles: Quod possunt omnes isti tecum, tu sola potes sine illis omnibus (13). E porque podeis vós só tanto, e mais que todos juntos? Quare hoc potes? Porque sois Mãe do nosso Salvador, Esposa do próprio Deus, Rainha do céu e da terra, e Soberana Imperatriz de todo o universo: Quia Mater est Salvatoris nostri, Sponsa Dei, Regina coeli et terrae et omnium elementorum. Enquanto vós não falais em meu favor, ninguém se atreve a defender-me: Te tacente, nullus orabit, nullus juvabit. Mas logo que vós pronunciais pela minha causa, terei tantos advogados quantos os cidadãos do céu: Te orante, omnes orabunt, omnes juvabunt.
Quantas vezes — diz o famoso abade de Celles — quantas vezes a misericórdia da Mãe obtém a graça da conversão àquele a quem a justiça do Filho estava prestes a condenar ao fogo eterno? Saepe quos justitia Filii potest damnare, Matris misericordia liberat (14). Que confiança pois não devemos ter naquela Senhora, que, pelo mesmo facto de ser Mãe de Deus, foi declarada dispensadora das graças de seu Filho, e tem nas suas mãos a nossa salvação! Thesauraria gratiarum ipsius; salus nostra in manu illius est.
Tal tem sido o sentir geral de todos os Santos com relação à Mãe de Deus; tal tem sido desde todos os tempos a fé da Igreja.

Só os hereges é que não puderam tolerar nunca que se rendesse a Maria o culto religioso que lhe é devido. Não houve nem há inimigo do Filho que o não tenha sido ou seja da Mãe. Foi Maria quem esmagou a cabeça do dragão; não admira pois que por ele seja tão figadalmente aborrecida: e como o mistério da Encarnação é o fundamento da fé, não há blasfêmia que o inferno não tenha vomitado contra esse divino mistério.
Os arianos negavam a divindade do Verbo; os nestorianos a união substancial do Verbo com a carne, admitindo duas pessoas em Cristo; os eutiquianos não reconheciam nele senão uma só natureza; os monotelitas davam-lhe uma só vontade, e os marcionitas um corpo fantástico.
Todos estes empoechanados tiros iam dar de ricochete na augusta qualidade de Mãe de Deus em Maria.
A Igreja fulminou em seus concílios tão ímpios erros, e anatematizou os hereges. Entre estes nenhum se declarou com maior horror contra a maternidade divina que o ímpio Nestório. Arrebatado do espírito de orgulho, este indigno patriarca de Constantinopla atreveu-se a disputar impudentemente a Maria a augusta qualidade de Mãe de Deus; e para colírio ou adoçar a malignidade do seu erro, concedeu à Senhora os mais honrosos títulos que podia encontrar, à exceção de Theotocos, ou Mãe de Deus, que é o princípio e a base de todos os outros.
Reconhecendo a Igreja que negar esta indisputável excelência à Virgem, era lançar por terra o mistério da Encarnação, tomou a defesa deste ponto essencialíssimo, com toda a força e ardor do seu zelo. Reuniu o célebre concílio de Éfeso, no ano de 431, em que Nestório foi excomungado e degradado, e todos os seus erros anatematizados; ficando definido como um dos principais artigos de fé, que Maria é verdadeira Mãe de Deus, no sentido natural e rigoroso do termo, sem que este dogma, tão antigo como a própria Igreja, pudesse sofrer interpretação maligna, declarando-se que o termo Theotocos seria tão consagrado e característico contra a heresia de Nestório, como já era o Consubstancial contra os erros de Ário.
Não se pode imaginar o aplauso e regozijo com que foi recebida esta definição da Igreja universal para glória da Santíssima Virgem. É justo que não deixemos em silêncio as demonstrações de júbilo que se fizeram em Éfeso no dia em que ela se publicou.
Chegado pois este dia, todo o povo abandonou as suas casas e tomou as ruas e praças, aglomerando-se imensa multidão ao redor do famoso templo dedicado a Deus em honra da Virgem, onde estavam reunidos os Padres do Concílio.
Logo que se publicou a decisão e se conheceu que Maria era mantida na justa posse do título de Mãe de Deus, toda a cidade estremeceu com festivas aclamações e gritos de entusiástica e devotíssima alegria; e estes transportes de inexprimível regozijo foram tão vivos e tão universais, que ao saírem os padres para suas casas, todo o povo os conduziu em triunfo, aclamando-os e pedindo-lhes as bênçãos. Pelas ruas por onde eles seguiam, queimavam-se plantas aromáticas; milhares de archotes os rodeavam: o júbilo roçava pelo delírio. Nada faltou à pompa deste regozijo comum, nem ao esplendor da gloriosa vitória que Maria acabava de alcançar sobre os seus inimigos, que o eram não menos do seu Santíssimo Filho. Tão verdade é — exclama S. Boaventura — que o culto religioso da Mãe de Deus foi sempre comum a todos os verdadeiros cristãos. Nasceu com a Igreja, a devoção à Santíssima Virgem, e em todos os tempos foi olhada como um sinal visível de predestinação: Qui acquiritur gratiam Mariae, agnoscentur a civibus paradisi; et qui habuerit hunc characterem, adnotabitur in libro vitae (15). Esta não é de modo algum — acrescenta S. Bernardo — uma presunçosa confiança que fomente a relaxação; é um religioso culto, é uma piedosa confiança, fundada na poderosa proteção da Mãe de Deus, e sustentada por uma vida ordenada e cristã.
O fim desgraçado do ímpio Nestório, foi um anúncio do que devem esperar todos os que se declaram inimigos da Santíssima Virgem.
Crê-se que foi neste santo concílio de Éfeso que S. Cirilo, que o presidia em nome do papa S. Celestino, compôs juntamente com os outros padres, aquela devota oração à Mãe de Deus, que a Igreja adotou depois: Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores, agora, e na hora da nossa morte. Amém.
Foi em todos os tempos mui célebre na Igreja a festa da Anunciação. Quando Santo Agostinho vivia, já estava fixada no dia 25 de março, no qual diz este Santo Padre, se crê por antiga e venerável tradição que Jesus Cristo foi concebido, e veio a morrer: Sicut a majoribus traditum suscipiens Ecclesiae custos auctoritas, eodem Kalendas aprilis conceptus creditur, quo et passus.
O décimo concílio de Toledo, celebrado no ano de 656, chama à solenidade deste dia a “Festa por excelência da Mãe de Deus, a Grande Festa da Virgem”; Festum sanctae Virginis, Genitricis Dei, festivitas Matris. Pois que outra festa da Mãe de Deus — dizem os padres deste concílio — é maior do que a da Encarnação do Verbo? Nam quod festum est Matris, nisi Incarnatio Verbi?
A incompatibilidade do luto da Igreja num tempo de paixão e penitência em que ordinariamente cai a Anunciação, com a alegria e solenidade que convém a esta grande festa, levou os padres do referido concílio a transferi-la para o tempo do Advento, em que o ofício divino é quase todo do mistério da Encarnação e da Anunciação da Virgem. A Igreja de Toledo fixou-a no dia 18 de dezembro, e a de Milão no domingo que precede imediatamente a festa do Natal.
Mas como a Igreja Romana a restituísse, no século nono, ao seu dia próprio, quase todas as outras Igrejas se conformaram com ela; se bem que a maior parte não deixou de celebrar também uma festa particular em honra da Santíssima Virgem, no dia 18 de dezembro, com o título de Expectação de Nossa Senhora, que ainda se reza.
Na própria Inglaterra, não obstante o funesto cisma, continua-se a observar-se, no dia 25 de março, como dantes, a festa da Anunciação, que, mais que de preceito, se celebra com jejum, vigília, ofício público e uma coleta particular. Começa neste dia o ano eclesiástico.
São muitas as Ordens religiosas que se honram com o distintivo da Anunciação de Maria. Os servitas, ou servos da Santíssima Virgem, cujo instituto teve princípio em Florença pelos anos de 1232 e que no espaço de cinco séculos (16) têm dado muitos Santos ao céu e grandes homens à Igreja, denominam-se da Anunciada ou da Anunciação; e na verdade nenhum título convém melhor a uma Ordem especialmente dedicada a servir e honrar a Virgem do que este, que está significando o feliz momento em que ela se tornou Mãe de Deus.

Na França e na Itália há religiosas que têm o mesmo nome, chamadas também Celestes, ou Monjas azuis, por andarem vestidas de azul. O total esquecimento do mundo junto com o profundo silêncio, retiro e solidão que professam, contribui muito a fomentar aquele espírito interior e doce piedade que nesta Ordem reina, fazendo-a mui digna do título da Anunciada ou da Anunciação.
No ano de 1460 o cardeal João de Tuercenata fundou em Roma, em Nossa Senhora da Minerva, uma piedosa congregação com o título da Anunciada, para casar donzelas pobres e bastar às que desejem fazer-se religiosas. Esta arquiconfraria tornou-se tão rica pelas liberalidades dos sumos pontífices, por muitos legados pios, que todos os anos dá dote a quatorze centenas de donzelas. É o próprio pontífice que pessoalmente distribui os dotes no dia 25 de março.
No ano de 1639 a ilustre madre Joanna Chezard fundou em Avinhão, com aprovação da Santa Sé, a Ordem das religiosas do Verbo Encarnado, cujo principal fim é honrar continuamente com fervorosa devoção este divino Verbo feito carne nas entranhas da mais pura e mais santa entre todas as Virgens, e preparar-lhe castas esposas pela piedosa e admirável educação que segundo o seu instituto ministram às meninas que Deus chama ao estado religioso. Pode-se dizer que o fervor e religioso porte com que edificam a todos, sustentam com esplendor o augusto título que as distingue, e lhes merecem a qualidade de Filhas do Verbo Encarnado.
Amadeu VIII, duque de Sabóia, em 1434 substituiu pelo título da Anunciada o da Ordem militar Lago d’Amor, mandando que em lugar da imagem de S. Maurício trouxessem os cavaleiros a da Santíssima Virgem, e em vez dos laços uns cordões com palavras da Saudação Angélica. Prova isto que no mundo cristão não há estado algum que não professe especial veneração a este mistério, que sendo o primeiro de todos, foi princípio e origem da nossa felicidade.
O mesmo espírito de devoção e reconhecimento moveu o papa Urbano II a ordenar, no ano de 1095, no concílio de Clermont a que ele presidia em pessoa, que todos os clérigos rezassem o ofício parvo de Nossa Senhora, introduzido já entre os monges por S. Pedro Damião; e que três vezes ao dia — pela manhã, ao meio-dia e à noite — se tocasse às orações, vulgarmente chamadas as Ave-Marias, e que em outro tempo se dizia Tocar ao perdão, pelas grandes indulgências que os papas João XXII, Calixto III, Paulo III, Alexandre VII, Clemente X e outros concederam aos que as rezassem três vezes ao dia.
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