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Reflexão do Evangelho – vigésimo segundo domingo do tempo comum

O Evangelho de hoje lança Jesus em uma luz profética como alguém que tem autoridade para interpretar a lei de Deus.

A citação de Jesus de Isaías hoje é irônica (ver Isaías 29:13 ). Ao cumprir a lei, os fariseus honram a Deus garantindo que nada impuro saia de seus lábios. Nisso, entretanto, eles viraram a lei do avesso, tornando-se uma questão de simplesmente realizar certas ações externas.

O dom da lei, que ouvimos Deus dar a Israel na primeira leitura de hoje, se cumpre no Evangelho de Jesus, que nos mostra o verdadeiro sentido e propósito da lei (ver Mateus 5:17 ).

A lei, cumprida no Evangelho, visa formar o nosso coração, tornar-nos puros, capazes de viver na presença do Senhor. A lei foi dada para que pudéssemos viver e entrar na herança que nos foi prometida – o reino de Deus, a vida eterna.

Israel, por sua observância da lei, deveria ser um exemplo para as nações vizinhas. Como Tiago nos diz na epístola de hoje, o Evangelho nos foi dado para que pudéssemos ter um novo nascimento pela Palavra da verdade. Vivendo a Palavra que recebemos, devemos ser exemplos da sabedoria de Deus para os que estão ao nosso redor, os “primeiros frutos” de uma nova humanidade.

Isso significa que devemos ser “praticantes” da Palavra, não apenas ouvintes. Enquanto cantamos o Salmo de hoje e ouvimos novamente na Epístola de hoje, devemos trabalhar pela justiça, cuidando de nossos irmãos e irmãs e vivendo pela verdade que Deus colocou em nossos corações.

A Palavra que nos foi dada é um presente perfeito. Não devemos aumentar isso por meio de devoções vãs e desnecessárias. Nem devemos subtrair dela escolhendo e escolhendo quais de Suas leis honrar.

“Ouça-me”, diz Jesus no Evangelho de hoje. Hoje, somos chamados a examinar nosso relacionamento com a lei de Deus.

A prática da nossa religião é uma escuta pura de Jesus, um acolhimento humilde da Palavra plantada em nós e capaz de salvar a nossa alma? Ou estamos apenas fingindo?

Scott Hahn
Fonte: https://stpaulcenter.com

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O Anticristo
A advertência profética de Vladimir Soloviev
Cardeal Giacomo Biffi

[Para dirigir os Exercícios Espirituais da quaresma de 2007, Papa Bento XVI convidou o Arcebispo emérito de Bolonha, Cardeal Giacomo Biffi (1928-2015), notável não só por sua fidelidade à Igreja, como também pelo refinado senso de humor, que algumas vezes lembra Chesterton. No dia 27 de fevereiro, leu a sua primeira conferência diante do pontífice e seus colaboradores da Cúria. O assunto era sobre “o senhorio de Cristo sobre o cosmos e a história”, e, como porta de entrada ao tema, o Cardeal analisou um conto longo do filósofo russo Vladimir Soloviev, morto aos quarenta e sete anos, em 1900, depois de convertido da Ortodoxia ao catolicismo romano. O conto se intitula “O Anticristo” e faz parte da última obra pelo filósofo, Três diálogos. Sobre a guerra, a moral e a religião, publicada em 1899.]

Ao fim do século XIX a mentalidade mais corrente previa que o século que estava para começar trazia consigo progresso, prosperidade e paz. Victor Hugo, ao fim do século, havia profetizado: “Este século foi grande, o próximo século será feliz”.

1. Soloviev não se deixa contagiar por tal ingenuidade laicista e, na sua última obra, Os três diálogos e um conto sobre o Anticristo, datada da páscoa de 1900, poucos meses antes de morrer, prevê que o século XX seria marcado por grandes guerras, por grandes revoluções cruentas, por grandes lutas civis. Ao final do século, os povos europeus – persuadidos dos graves danos derivados das suas rivalidades – dariam origem, disse, aos Estados Unidos da Europa “mas… os problemas da vida e da morte, do destino final do mundo e do homem, tornando-se mais complicados e intrincados por uma avalanche de pesquisas e de novas descobertas nos campos fisiológico e psicológico permanecem, como antigamente, sem solução. Vem à luz um único resultado importante, mas de caráter negativo: a completa falência do materialismo teórico”.  Isso não vai, entretanto, aumentar ou fortalecer a fé. Ao contrário, a incredulidade será rampante. Então, ao final teremos para a civilização europeia uma situação que poderia ser definida como vazia. Esse vácuo apenas faz emergir e afirmar a presença e a ação do Anticristo.

2. Mais do que o evento imaginado por Soloviev – no qual o Anticristo primeiro vem a ser eleito presidente dos Estados Unidos da Europa, e depois é proclamado Imperador Romano, se apossa do mundo inteiro e ao final se impõe também contra a vida e a organização das Igrejas – é relevante relembrar as características atribuídas a esse personagem. Era – disse Soloviev – “um convicto espiritualista”. Acreditava no bem e até mesmo em Deus, “mas amava somente a si mesmo”. Era um asceta, um estudioso, um filantropo. Dava “grandes demonstrações de moderação, de desinteresse e de ativa beneficência”. Na sua juventude havia se destacado como um culto exegeta: uma volumosa obra sua de estudo bíblico lhe proporcionou um doutorado ad honorem por parte da Universidade de Tubinga. Mas o livro que lhe proporcionará fama e consenso universal levará o título: “O caminho aberto sobre a paz e a prosperidade universal”, onde “se uniram o nobre respeito pelas tradições e símbolos antigos com um vasto e audaz radicalismo de exigências e diretivas sociais e políticas, uma liberdade sem limites de pensamento com a mais profunda compreensão de tudo aquilo que é místico, o absoluto individualismo com um ardente direcionamento ao bem comum, o mais elevado idealismo em termos de princípios diretivos com a precisão completa e a vitalidade das soluções práticas”. É verdade que alguns homens de fé se perguntariam por que o nome de Cristo não era mencionado nenhuma vez; mas outros os rebatiam: “A partir do momento que o conteúdo do livro é permeado de verdadeiro espírito cristão, do amor ativo e da benevolência universal, o que mais vocês querem?”.  Por outro lado, ele “não terá por Cristo uma hostilidade de princípio”. Na verdade ele apreciava a sua reta intenção e o seu altíssimo ensinamento. Três coisas de Jesus, entretanto, ele consideraria inaceitáveis. Em primeiro lugar as suas preocupações morais. “O Cristo– afirmaria – dividiu os homens entre bons e maus com seu moralismo, entretanto eu os unirei por meio dos benefícios que são igualmente necessários aos bons e aos maus”. Além disso, não lhe agradava “a sua absoluta unidade”.  Ele é um entre tantos; ou melhor – dizia para si – foi o meu precursor, pois o salvador perfeito e definitivo sou eu, que purifiquei sua mensagem daquilo que é inaceitável aos homens de hoje. E acima de tudo, não podia aceitar que Cristo estivesse vivo, e por conta disso repetia histericamente: “Ele não está entre os vivos e nunca o estará. Não ressuscitou, não ressuscitou, não ressuscitou! Apodreceu, apodreceu no sepulcro…”.

3. Mas onde a exposição de Soloviev se mostra particularmente original e surpreendente – e merecedora de reflexões mais profundas – é na atribuição ao Anticristo das qualidades de pacifista, ecologista e ecumenista.

I. Já se viu que a paz e a prosperidade são os argumentos das obras-primas literárias dos nossos heróis. Mas são ideias que ele será bem sucedido em implantar. No segundo ano de reinado, como Imperador Romano e Universal, poderá emitir o pronunciamento: “Povos da terra! Eu vos prometi a paz e eu a dei a vocês”.  E justamente por causa disso surgirá nele a ideia de sua superioridade em relação ao Filho de Deus: “Cristo trouxe a espada, eu trarei a paz”. Para melhor compreender o pensamento de Soloviev sobre esse ponto, pode-se citar o que ele disse no terceiro diálogo pela boca do senhor Z., o interlocutor que representa o autor: “Cristo veio à terra trazer a verdade, e essa, como o bem, primeiro divide”. “Existe por conseguinte – disse Soloviev – a paz boa, a paz cristã, baseada sobre aquela divisão que Cristo veio trazer sobre a terra precisamente com a separação entre o bem e o mal, entra a verdade e a mentira; e há a paz ruim, a paz do mundo, fundada sobre a união exterior daquilo que interiormente está em guerra”.  Quanto ao pensamento sobre a guerra no sentido mais comum e óbvio do termo, recordemos que o primeiro dos três diálogos “solovievianos” e todo dedicado à crítica do pacifismo tolstoiano e da doutrina da não-violência. A guerra – afirma – é certamente um mal, mas é necessário reconhecer que, seja na vida do indivíduo seja na vida da nação, ocorrem situações onde não bastam avisos ou boas palavras para responder às agressões. Podemos dizer que, segundo Soloviev, enquanto os ideais de paz e de fraternidade são valores indiscutivelmente cristãos, não o podem ser considerados o pacifismo e a teoria da não-violência que muitas vezes resultam em tolerância a prevaricações e à um abandono indefeso dos pequenos e dos fracos à mercê dos maus e dos prepotentes.

II. O Anticristo será também um ecologista ou ao menos um defensor dos animais. São termos modernos que obviamente Soloviev não usava; mas a sua descrição é bastante clara: “O novo senhor da terra – dizia – era em primeiro lugar um filantropo, cheio de compaixão, não só amigo dos homens como também dos animais. Pessoalmente era vegetariano, proíbe as vivissecções e  submete os matadouros à uma severa vigilância; as sociedades protetoras dos animais serão encorajadas por ele de todas as maneiras”.

III. O Anticristo por fim se mostrará um excelente ecumenista, capaz de dialogar “com palavras cheias de doçura, sabedoria e eloquência”. Convocará os representantes de todas as denominações cristãs a “um concílio ecumênico sob sua presidência”. A sua ação buscara o consenso de todos através da concessão de favores. “Se vocês não são capazes de chegar a um acordo– dirá aos convocados da reunião ecumênica – espero ser eu a pô-los em acordo, mostrando a todos o mesmo amor e a mesma solicitude para satisfazer de cada um a verdadeira aspiração”. Porá em prática esse projeto, devolvendo aos católicos o poder temporal do Papa, erigindo para os ortodoxos um instituto para a conservação de todos os preciosos paramentos litúrgicos da tradição oriental, criando ao benefício dos protestantes um centro de pesquisa bíblica livre, generosamente financiado. É um ecumenismo exterior e “quantitativo”, que lhe servirá perfeitamente: as massas de cristãos entraram no seu jogo. Somente um grupelho de católicos liderados pelo Papa Pedro II, um pequeno grupo de ortodoxos guiados por João e alguns protestantes exprimindo-se pela boca do professor Pauli resistiram ao fascínio do Anticristo. Eles viram para promover o ecumenismo da Verdade, reunindo-se em uma única Igreja e reconhecendo o primado de Pedro. Mas será um ecumenismo “escatológico”, realizado quando a história já estiver perto da sua conclusão: “Assim– conta Soloviev – faz-se a união das Igrejas no coração de uma noite escura à uma altura solitária. Mas a escuridão da noite será repentinamente rasgada por um vivido esplendor e no céu aparecerá um grande sinal: uma mulher vestida de sol, com a lua sob seus pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas”.

4. Qual é então a “advertência profética” que aproxima o nosso tempo dessa espécie de parábola do grande filósofo russo? Virão dias, nos disse Soloviev, em que o cristianismo tenderá a reduzir o fundamento da salvação, que não pode ser aceita se não pelo ato difícil, corajoso, concreto e racional da fé, a uma série de “valores” facilmente negociados no mercado mundano. É desse risco que devemos nos proteger. Mesmo se um cristianismo que falasse somente de “valores” amplamente compartilháveis se mostrasse infinitamente mais aceitável ao público, nas congregações sociais e na política, nas transmissões de televisão, não podemos e não devemos renunciar ao cristianismo “de Jesus Cristo”, o cristianismo que possui em seu centro o “escândalo” da Cruz e a realidade perturbadora da ressurreição do Senhor. Este perigo – devo acrescentar – na sociedade dos nossos tempos não é puramente hipotético. Pe. Divo Barsotti disse algo assustador, mas de atualidade incontestável: Em muitas propostas, em muitas iniciativas, em muitos discursos das nossas comunidades– afirmava – Jesus Cristo é uma desculpa para falar de outra coisa. O Filho de Deus crucificado e ressurgido, único Salvador dos homens, não é “transferível” a uma série de bons projetos e de boas intenções, verificáveis na mentalidade mundana dominante.  É uma “pedra”, como ele próprio referiu-se à si mesmo – e como nós mesmos raramente temos coragem de repetir -:  sobre essa “pedra”, ou (crendo) se constrói ou (contrapondo-se) nos esmagamos: “[Aquele que tropeçar nesta pedra, far-se-á em pedaços; e aquele sobre quem ela cair será esmagado.]” (Mt 21,44).

5. São necessários alguns esclarecimentos sobre esse ponto. É indiscutível que o cristianismo é, antes de mais nada, um “evento”; mas também indiscutível que esse evento propõe e sustenta “valores irrenunciáveis”. Claro que não se pode, por amor ao diálogo, desintegrar o fato cristão em uma série de valores compartilháveis pela maioria; mas não se pode tão pouco desestimular os valores autênticos como se fosse algo insignificante. É, portanto, necessário discernimento.  Há valores absolutos – ou, como dizem os filósofos, transcendentais – tais como, por exemplo, a verdade, o bem, o belo. Quem os percebe e os honra e ama, percebe, honra e ama Jesus Cristo, mesmo se não o sabe e talvez se considere ateu, por que no ser profundo das coisas, Cristo é a verdade, a justiça, a beleza. Há valores relativos (ou categóricos), como o culto à solidariedade, o amor à paz, o respeito pela natureza, a disposição ao diálogo, etc. Esses merecem um juízo mais articulado, que preserve a reflexão em toda a sua ambiguidade. Solidariedade, paz, natureza, diálogo podem proporcional ao não-cristão ocasiões concretas para uma aproximação com Cristo e Seu Mistério. Mas se dá atenção à eles ao ponto de que se absolutizem até perderem toda a sua raiz objetiva ou, pior, até se contraporem ao anúncio do fato salvífico, então se tornam instigações à idolatria e obstáculos no caminho da salvação. Do mesmo modo, no cristão, esses mesmos valores – solidariedade, paz, natureza, diálogo – podem oferecer precisos impulsos à realização de uma total e apaixonada adesão a Jesus, Senhor do universo e da história; é, por exemplo, o caso de São Francisco de Assis. Mas se o cristão, por amor à abertura ao mundo e da boa relação com todos, quase sem perceber dissolve substancialmente o fato salvífico na exaltação e na realização destes objetivos secundários, então ele se impede de conhecer pessoalmente o Filho de Deus crucificado e ressuscitado, e cai pouco a pouco no pecado da apostasia, e encontra-se ao final ao lado do Anticristo.

6. No prefácio de “Os três diálogos”, Soloviev conta que, naquele tempo, em alguma província da Rússia começava a difundir-se uma nova religião, que havia simplificado bastante a sua atividade de culto. Os seus adeptos “depois de fazerem em algum canto escuro da parede do isbá, um buraco de tamanho médio… colocavam os lábios sobre o buraco e repetiam muitas vezes com insistência: meu isbá, meu buraco, salve-me!”. Nessa incrível bizarrice – nota Soloviev – havia ao menos a virtude do uso correto dos termos: “Chamam o isbá de isbá e o buraco… de buraco”. No nosso mundo há algo pior, continua o filósofo, implacavelmente. “O homem perdeu sua antiga franqueza. O seu isbá recebeu a nome de “reino de Deus na terra”; quanto ao buraco, começaram a chama-lo de ‘novo evangelho’” (Aqui a polêmica com Tolstoi é franca e até feroz). Mas o cristianismo sem Cristo e sem a boa nova de uma real e pessoal ressurreição “é a mesma coisa que um espaço vazio, como um simples buraco, feito no isbá de um camponês”. Concluindo, me parece que também, e sobretudo, hoje estamos lutando contra uma cultura da pura e simples “abertura”, da liberdade sem limites, do nada existencial. Esta é a maior tragédia do nosso tempo. Mas a tragédia torna-se ainda maior quando se atribui a esse “nada”, a essas “aberturas”, a esses “buracos”, por amor ao diálogo, alguma enganosa etiqueta cristã. Fora de Cristo – pessoa concreta, realidade viva, evento – só há o “vazio” do homem e o seu desespero. Em Cristo, que é o pleroma do Pai, o homem encontra a sua plenitude e a sua única esperança. (Tradução de Italo Lorenzon Neto)

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SOLENIDADE DE CORPUS CHRISTI

Ouça o belíssimo ofício Adoro Te Devote, composto por Santo Tomás de Aquino a pedido do Papa Urbano IV, no século XIII, por ocasião da promulgação da Festa de Corpus Christi através da Bula “Transiturus de hoc mundo”.

Ó sagrado convite em que se recebe a Cristo:
renova-se a memória de sua Paixão;
a alma se plenifica de graça,
e nos é dado um penhor da glória futura.

Nas Vésperas da festa de Corpus Christi cantamos esta linda antífona, escrita (como todo o Ofício do Santíssimo Sacramento) por Santo Tomás de Aquino, e carregada de significado teológico.

Com efeito, Santo Tomás nos ensina na Suma Teológica (III, 60, 3) que todo sacramento, especialmente o da Eucaristia, é um sinal sensível que significa a nossa santificação, na qual podemos considerar três coisas: 1º a própria causa da santificação, que é a Paixão de Cristo; 2º sua essência mesma, que é a graça; 3º seu fim último, que é a vida eterna.

E assim, a Sagrada Eucaristia é um sinal rememorativo da Paixão de Cristo; um sinal demonstrativo do que se realiza em nossas almas pela Paixão de Cristo, a saber, a graça; e um sinal prenunciativo da glória futura. Consideremos, pois, cada um desses três pontos.

1º A Sagrada Eucaristia – sinal rememorativo da Paixão de Cristo

Esta é uma das verdades fundamentais que se nos quer fazer esquecer hoje, quando nos apresentam a Sagrada Eucaristia somente sob o aspecto da comunhão ou de ceia. No entanto, a Sagrada Eucaristia deve ser apreciada e considerada também sob outro aspecto, mais importante, que é o de sacrifício. A Sagrada Eucaristia não é tão somente uma comunhão com o Corpo e Sangue de Cristo; é, antes de tudo, a renovação incruenta do Sacrifício do Calvário. Ambos os aspectos são inseparáveis. Sem Sacrifício não haveria Sacramento: uma vez que Cristo faz-se presente sob as espécies de pão e vinho para ser imolado. Da mesma forma, sem Sacramento não há Sacrifício: porque, para que haja sacrifício, é necessária a presença da Vítima e porque a integridade do Sacrifício exige a comunhão com a Vítima sob o aspecto de Sacramento.

E para nos mostrar de maneira sensível a íntima união entre os dois aspectos, a Igreja sempre manteve juntos o sacrário e o altar. Desgraçadamente, por quase cinquenta anos agora, nas igrejas passou-se a separar o tabernáculo do altar; o Santíssimo, que anteriormente tinha seu trono solene no meio da igreja, no centro, onde todos os olhos imediatamente o viam, foi relegado para o lado, às vezes para um canto, quando não há que se voltar para tentar localizar a lâmpada que indica sua presença. Querem fazer-nos esquecer que a Eucaristia é, em primeiro lugar, sacrifício. Qual é a triste consequência disso? Uma vez destruída a noção católica da Missa, uma vez perdida a ideia de sacrifício, acaba mesmo por perder-se a noção de presença real. Já não se crê na presença eucarística; reduziu-se a uma simples presença espiritual, uma simples memória…

É fundamental que compreendamos esta verdade: a Sagrada Eucaristia é Adoração, é Expiaçãopelos nossos pecados, é Ação de Graças e é Súplica de tudo quanto necessitamos, porque é Sacrifício: o Sacrifício de Jesus Cristo, Deus feito homem, renovado todos os dias nos altares, para devolver-nos a amizade de Deus e alcançarmos os dons celestiais.

2º Santa Eucaristia – sinal demonstrativo e causa da graça.

A Sagrada Eucaristia, em virtude da Paixão de Cristo, aumenta e fortalece em nós a graça santificante. No entanto, não o faz como os outros sacramentos, nos quais se nos comunica uma graça criada; este Sacramento supera a todos em excelência, porque nele se nos comunica o autor mesmo da graça. E que graça quer conceder Nosso Senhor pessoalmente à nossa alma? O evangelho da festa de Corpus Christi nos mostra muito bem. Nosso Senhor nele nos diz:

  • “A minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida”. Ou seja, do mesmo modo que a vida corporal necessita de alimento, assim também a vida espiritual. Mas o que é realmente maravilhoso, é que Jesus Cristo não se conformou em dar-nos qualquer alimento; Ele mesmo quis ser o alimento de nossas almas, o alimento de nossa vida sobrenatural. Assim já o manifestaram as figuras da Sagrada Eucaristia no Antigo Testamento, sendo quatro as principais, todas elas sob a forma de alimento: 1º a árvore da vida; 2º o sacrifício de Melquisedec; 3º o maná; 4º o cordeiro pascal. E assim como na vida corporal “o alimento sustenta, acrescenta, restaura e deleita”, como Santo Tomás assinala, assim Nosso Senhor Jesus Cristo quer, através deste sacramento, sustentar nossa vida sobrenatural para que ela não pereça, acrescentá-la para que se desenvolva, restaurá-la para devolver-lhe as forças que podem se perder pelo pecado, e deleitá-la para nos plenificar de gozo e de amor de Deus.
  • “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele”. Ou seja, se Nosso Senhor quer ser nosso alimento, é para unir-se a nós, e para unir-nos a Ele. O fruto próprio deste sacramento é a união a Jesus Cristo e a união entre todos os fiéis. Por quê? Porque neste sacramento Nosso Senhor realiza e aperfeiçoa nossa incorporação a Ele, conforme já nos ensinara: “Eu sou a videira, vós sois os ramos”. Por esta razão, na Secreta da Missa da festa de Corpus Christi, a Igreja pede a Deus o dom da unidade: “Concedei-nos propício, Senhor, à vossa Igreja os dons da unidade e da paz, misticamente representados pelos dons que vos oferecemos”.
  • “Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim”. Com efeito, se Nosso Senhor quer nos unir a Si, é para fazer-nos viver de sua vida, é para ser nossa vida: “Para mim o viver é Cristo”; é para transformar-nos n’Ele. “O unigênito Filho de Deus – diz Santo Tomás nas Matinas do dia de Corpus Christi – querendo fazer-nos partícipes de sua divindade, tomou nossa natureza, para que sendo homem, fizesse aos homens deuses”. E para isso, continua Santo Tomás, “entrega-se como resgate por nós na cruz, e como alimento na Sagrada Eucaristia”. De modo que, por meio da Sagrada Comunhão, Nosso Senhor vem estabelecer em nossas almas: • “uma comunhão de vida: possuímos, realmente e sem figura, a própria vida de Cristo; • uma comunhão de mistérios: Nosso Senhor nos faz participar de todos os estados de sua vida mortal, e apropriar-nos de sua própria virtude, para que continuemos reproduzindo-o em nós; • uma comunhão de sentimentos: dando-nos uma perfeita conformidade de visões, de julgamentos, de vontades, de sofrimento, de ação; • uma comunhão, enfim, do que Jesus Cristo tem de mais íntimo: sua qualidade de Filho de Deus.

3º A Santa Eucaristia – sinal prenunciante da glória futura.

Essa união que Jesus Cristo contrai conosco através da Eucaristia não desaparece quando as espécies sacramentais de pão e vinho deixam de existir, mas deve durar por toda a eternidade. A Sagrada Eucaristia comunica às nossas almas uma vida divina e imortal, que nos fará viver para sempre, e que já coloca em nosso corpo uma semente da ressurreição gloriosa: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia”.

Se, de fato, esta união é interrompida, é somente por culpa nossa, porque Deus nos dá de sua parte quantas graças são necessárias para que esta união seja perpétua. Com efeito, por este Sacramento, Jesus Cristo nos dá força para evitar o pecado e nos preserva das culpas; sustenta e fortalece a vida da graça para que dure sempre; e nos une a Si, para que nós já nesta vida o possuamos como o possuem os bem-aventurados no céu.

De modo que Deus dá um mesmo manjar aos santos do céu e aos homens neste vale de lágrimas, mas preparado e acomodado ao estado de cada um. Esse manjar único é a divindade e a humanidade de Cristo, que os bem-aventurados veem claramente, e nas quais se embriagam e encontram toda felicidade; e que também a nós se nos entrega neste Sacramento, mas acomodado ao nosso estado de peregrinos, ou seja, sob o véu e obscuridade da fé.

Nosso Senhor prometeu: “Quem comer a minha carne e beber o meu sangue viverá eternamente”. Portanto, a alma que frequentemente recebe a Jesus na Comunhão, que se prepara para recebê-lo fervorosamente e que, alimentada por esse manjar, leva uma verdadeira vida cristã, está moralmente seguro de sua salvação eterna, pois através deste sacramento receberá as forças necessárias para vencer todos os obstáculos e alegremente atravessar as portas da eternidade. E lá, no céu, a união final e total da alma com Jesus Cristo será consumada, uma união já iniciada nesta vida através do sacramento da Eucaristia.

Conclusão

A recepção frequente da Eucaristia obriga-nos a levar uma vida santa. Nós não podemos, nós que recebemos a Jesus tantas vezes, viver como os outros homens. Devemos levar a mesma vida de Jesus: “Aquele que comer a minha carne viverá por mim”. Por isso:

  • Antes de tudo, devemos guardar, a todo custo, o estado da graça santificante, que Jesus Cristo nos comunica através deste sacramento, e tratar de cultivá-lo com a união a Deus através da oração e dos sacramentos.
  • Depois, devemos lembrar que a Eucaristia obriga-nos a reproduzir a paixão de Cristo, ou seja, obriga-nos a morrer definitivamente ao pecado e a unir todos os nossos sofrimentos e sacrifícios aos de Jesus.
  • Finalmente, devemos nos esforçar em viver desde agora uma vida de anjos, uma vida que esteja em consonância com a glória futura que Cristo nos promete, amando as coisas do céu e aprendendo a desprezar as da terra, onde estamos apenas de passagem.

“Beija-me com um beijo de tua boca”, desejava a esposa do Cantares: a Igreja, até então beijada pela boca dos patriarcas e dos profetas, já deseja que o mesmo Deus em pessoa, fazendo-se homem, viesse a ela para unir-se a Ele. E por isso alegra-se ao vê-lo finalmente chegar: “ Ei-lo que aí vem, saltando sobre os montes, pulando sobre as colinas”. Admiremos os saltos do Verbo de Deus para unir-se a nós: do seio do Pai, salta ao seio de Maria, daí para a Cruz, da Cruz para o sepulcro, do sepulcro para o céu; mas antes de nos deixar, Ele inventa a maneira de permanecer entre nós, não sendo capaz de separar-se das almas que tanto ama.

Assombremo-nos com a maravilhosa condescendência de um Deus que, apesar de tantas ingratidões e rudezas como as que há neste mundo, ainda assim quer permanecer presente entre nós! Celebremos, pois, alegremente, a presença de Jesus Cristo entre nós, e peçamos-lhe a graça de apreciar tão grande benefício, aproveitando quanto pudermos do Sacramento de seu Amor: “Oh Deus, que neste sacramento admirável nos deixaste o memorial da vossa Paixão, fazei, nós Vo-lo suplicamos, que veneremos o vosso Corpo e Sangue de tal modo que mereçamos sentir constantemente os efeitos da vossa Redenção”. (Colecta da festa de Corpus Christi).

Que a Santíssima Virgem nos ajude a compreender a grandeza da Eucaristia: da Missa e do Sacramento. Queremos um segredo para assistir com grande fruto a Santa Missa, para comungar com fervor? Unamo-nos a Ela, peçamos-lhe que nos empreste seus sentimentos, os mesmos que Ela teve quando ofereceu seu Filho no altar da Cruz e quando o recebia em seu peito pela comunhão das mãos de São João. Seja Ela a mestra que nos ensine a amar tão grande Sacramento.


Fonte: Hojitas de Fe, 200, Seminário Nossa Senhora Corredentora, FSSPX

Extraído do site: Dominus Est

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O Paradoxo do Protestantismo:
Ser Papa de Si Mesmo

Encontrei recentemente no Youtube este debate entre o nosso irmão Christian Huerta, da SemperFiat.com, e um líder evangélico do Ministério Jezreel, chamado Jesús Flores Luevano. O debate, embora bastante longo (estendeu-se por quase 9 horas em duas partes), não deixou de ser interessante:

Eu, que só cheguei a ver as primeiras quatro horas, tive a oportunidade de refletir sobre o problema que enfrento uma vez ou outra vez com irmãos protestantes (não todos) de distintas denominações, isto é, com aqueles que sofrem de uma cegueira tal que lhes faz confundir sua própria mente com a Palavra de Deus ou, inclusive, com o próprio Espírito Santo. Explico-me:

No debate em questão, Christian perguntou ao pastor se ele estava seguro de que a sua interpretação das Escrituras era a correta, enquanto que as [interpretações] dos demais, tanto dos católicos quanto dos outros protestantes eram incorretas, e como ele, Christian, poderia ter certeza disso. A isto seguiu-se uma série de respostas contraditórias, que retornavam para o mesmo ponto, como um círculo vicioso. Eis aqui algumas das respostas do pastor:

  • “Tenho a verdade porque Cristo mudou a minha vida e me transformou”.

Ainda que pareça difícil de acreditar, muitas pessoas sentimentalmente associam sua conversão ao fato de “estar na verdade”; pode ser que anteriormente não fossem fiéis praticantes mas, por exemplo, maus católicos, ateus ou agnósticos, e que em um dado momento ouviram a pregação do evangelho em uma comunidade protestante e então sua vida mudou de maneira genuína e positiva. A pessoa neste estado costuma não diferenciar entre a mensagem que verdadeiramente o fez mudar (e que no fundo é católica) dos erros da denominação que o acolheu, assumindo assim que todo o ensinamento que ali recebe é a verdade.

O problema disso é que há muitas pessoas que tiveram uma genuína conversão e sofreram uma mudança positiva na Igreja Católica, em outras comunidades protestantes que têm diferenças doutrinárias com eles e, inclusive, em seitas como os testemunhas de Jeová, adventistas e mórmons. Isso quer dizer que todos estão na verdade em tudo? É claro que não!

  • “Tenho a verdade porque vivo em santidade e os meus frutos o demonstram”.

Quanto a isto, o pastor se colocou como exemplo: antes vivia preso ao pecado e agora se considerava livre. Visto que agora é justo e vive em santidade, isso deveria demostrar que está na verdade. O problema aqui é que Christian precisou recordá-lo que se conheceram precisamente porque o pastor reproduzia sem autorização, em seu canal do Youtube, conteúdos protegidos por direitos autorais (o que é uma espécie de roubo). O pastor reconheceu que isso era algo mau, porém o fazia por uma boa causa – moral maquiavélica onde o fim justifica os meios. Quando Christian lhe fez perceber isto, aceitou que não tinha justificativa, porém [afirmou que] a santidade é um processo gradual e ele está nesse caminho.

Mas se o próprio pastor admitiu não ser totalmente santo, qual garantia deve haver de que a sua doutrina é totalmente reta? Existe, por acaso, uma porcentagem de santidade a partir da qual todas as interpretações bíblicas da pessoa se tornam infalíveis? Evidentemente, o pastor tampoco pôde responder satisfatoriamente a estas objeções.

É claro que Christian aqui “lançou” ao pastor a sua própria lógica (redução ao absurdo), porque nós, católicos, não cremos que a sã doutrina esteja sempre vinculada à santidade. Na própria Escritura vemos como havia fariseus hipócritas – a quem Cristo chamava de “sepulcros caiados” – que não estavam no erro, porém bem fundidos ao pecado, e por isso Jesus mandava [seus ouvintes] fazer tudo o que os fariseus mandavam, mas não imitar sua conduta (Mateus 23,2-3). Pode pois haver pessoa bastante comprometida e bem intencionada, mas que esteja também bem equivocada, como os testemunhas de Jeová, que são capazes de deixar morrer seus filhos ao negar-lhes uma transfusão [de sangue], crendo que esta é a vontade de Deus.

Isso sem contar que o argumento em si é bastante presunçoso, porque sob esta ótica, para que o pastor possa demostrar que a sua doutrina é mais sã que a de todos os demais, deve demostrar (e crer) que é mais santo que todos os demais. Ora, costuma ocorrer justamente o inverso: quanto maior a santidade, maior a consciência do pecado e das próprias misérias. A verdade é que quem utiliza este argumento dá indícios de possuir um grave problema de cegueira espiritual.

  • “Tenho a verdade porque a minha doutrina está de acordo com a Bíblia”.

Muitas vezes acontece que quando debato com irmãos protestantes eles me perguntem: “Por que vocês não obedecem a Bíblia?”, ao que eu lhes respondo: “Mas quem disse que não?”, ao que me respondem: “A Bíblia”. É aqui que eu lhes mostro o fato de que há milhares de denominações que também afirmam só se basearem na Bíblia, mas que a interpretam de uma forma muito diferente da deles. E se eu digo isto com a esperança de que possam compreender que uma coisa é o que pode dizer a Bíblia e, outra, o que eles entendem que ela diz, na maioria das vezes, entretanto, foi impossível que compreendessem a diferença. Para eles, o que sai do seu pensamento é a voz do Espírito Santo – o que é uma forma de idolatria do próprio juízo.

Tudo, na verdade, se reduz ao subjetivismo individualista e soberbo daquele que crê que todo aquele que não interprete a Bíblia como ele está errado; e, deste modo, ironicamente, discorda da infalibilidade da Igreja enquanto proclama a própria infalibilidade. Um exemplo o temos neste debate, onde o próprio pastor declara ser infalível em questões de doutrina – e precisamente por isso o título deste artigo aponta que no Protestantismo cada um é o seu próprio Papa.

A compreensão católica é radicalmente diferente: não cremos que estamos na verdade porque somos mais santos, ou porque somos mais inteligentes, ou porque temos mais Espírito Santo, ou porque temos uma experiência de conversão mais autêntica… Cremos que estamos na verdade porque pertencemos à única Igreja que Cristo fundou, sobre a qual as forças do inferno não prevalecerão (Mateus 16,19), que está edificada sobre o fundamento e a autoridade dos Apóstolos e de seu mordomo: o legítimo sucessor do Apóstolo Pedro, a quem Cristo confiou o seu rebanho enquanto prometeu estar com a Igreja todos os dias até o fim do mundo.

É o Espírito Santo quem guia a Igreja unida à verdade plena, pois nunca foi do plano de Deus que cada indivíduo tivesse que descobrir e definir toda a doutrina cristã a partir do zero toda hora.

Christian não pôde chegar a nenhum acordo com o pastor evangélico, mas devemos agradecê-lo porque nos deu ocasião de continuarmos aprofundando nestes temas de fé.


Fonte: www.veritatis.com.br

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A Maternidade Divina (Theotokos)

O que é dogma?

Dogma, por definição, é algo que não admite contestação. O termo “dogma” provém da língua grega, “dogma”, que significa “opinião” e “decisão”. Para a Igreja, é uma verdade teológica. Deve ser entendido sob a luz da fé e não da razão.

Os dogmas marianos foram conquistas históricas e teológicas do cristianismo. Fazem parte do patrimônio e da doutrina da Igreja. Brotaram do senso sobrenatural dos fiéis e foram formulados pela Igreja.

Os dogmas solenemente proclamados pela Igreja sobre Nossa Senhora foram quatro. Vamos estudar um pouco sobre cada um deles no blog.

A MATERNIDADE DIVINA – Maria verdadeira mãe de Deus (Theotokos)

O dogma da Maternidade Divina se refere a que a Virgem Maria é verdadeira Mãe de Deus. Foi solenemente definido pelo Concílio de Éfeso (431 d.C.). Algum tempo depois, foi proclamado por outros Concílios universais, o de Calcedonia e os de Constantinopla.

O Concílio de Éfeso, do ano 431, sendo Papa São Clementino I (422-432) definiu:
“Se alguém não confessar que o Emanuel (Cristo) é verdadeiramente Deus, e que portanto, a Santíssima Virgem é Mãe de Deus, porque pariu segundo a carne ao Verbo de Deus feito carne, seja anátema.”

O Concílio Vaticano II faz referência ao dogma da seguinte maneira: “Desde os tempos mais remotos, a Bem-Aventurada Virgem é honrrada com o título de Mãe de Deus, a cujo amparo os fiéis acodem com suas súplicas em todos os seus perigos e necessidades”. (Constituição Dogmática Lumen Gentium, 66).

O novo Catecismo da Igreja Católica:
“Denominada nos Evangelhos “a Mãe de Jesus” (João 2,1;19,25), Maria é aclamada, sob o impulso do Espírito, desde antes do nascimento de seu Filho, como “a Mãe de meu Senhor” (Lc 1,43). Com efeito, Aquele que ela concebeu Espírito Santo como homem e que se tornou verdadeiramente seu Filho segundo a carne não é outro que o Filho eterno do Pai, a segunda Pessoa da Santíssima Trindade. A Igreja confessa que Maria é verdadeiramente Mãe de Deus (Theotókos).”(CIC 495).

A tradição da Igreja Católica: (atenção nas datas)
“Filho de Deus pelo desejo e poder de Deus, nasceu verdadeiramente de uma Virgem” (S. Inácio de Antioquia, “Carta aos Magnésios”, 110 dC).

“Apesar de permanecer virgem enquanto carregava um filho em seu ventre, a serva e obra da sabedoria divina tornou-se a Mãe de Deus” (Efraim o Sírio, “Canções de Louvor 1,20”, 351 aD).

“Se alguém disser que a Santa Maria não é a Mãe de Deus, ele está em divergência com Deus. Se alguém declarar que Cristo passou pela Virgem como se passasse por um canal, e que não se desenvolveu divina e humanamente nela – divina porque não houve a participação de um homem, e humanamente segundo a lei da gestação – tal pessoa é também herege” (S. Gregório de Nanzianzo, “Carta ao Sacerdote Cledônio”, 382 dC).

Principais reformadores protestantes:
“Esta é a consolação e a transbordante bondade de Deus, que Maria seja sua verdadeira mãe, Cristo seu irmão, Deus seu Pai… Se acreditares assim, então estás de verdade no seio da Virgem Maria e és seu querido filho”.
(Lutero, Kirchenpostille, ed. Weimar, 10.1, p. 546.)

“Por isso em uma palavra compendia-se toda a sua honra: quando se a chama mãe de Deus, ninguém pode dizer dela maior louvor. E é preciso meditar em nosso coração o que significa ser mãe de Deus”.
(Lutero, Comentário ao Magnificat, de 1521, [FiM95], pg.1121.Sermão, 1522:WA 7,572)

“Não se pode negar que Deus escolheu e destinou Maria para ser a Mãe de Seu Filho, garantindo-lhe a mais alta honra. Isabel chama Maria de “Mãe do Senhor” porque a unidade da pessoa nas duas naturezas de Cristo era tal que ela poderia ter dito que o homem mortal gerado no ventre de Maria era, ao mesmo tempo, o Deus eterno”
(João Calvino, citado em “Corpus Reformatorum” v.45, p.348).

A Biblia:
“Por isso, o próprio Senhor vos dará um sinal: uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamará Deus Conosco.” (Is 7,14)

“Donde me vem esta honra de vir a mim a mãe de meu Senhor?” (Lc 1,43)

“Mas quando veio a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, que nasceu de uma mulher”… (Gl 4,4).